quarta-feira, 28 de maio de 2014

Lagoa de Velhos/RN: Wodem Madruga faz publicação em sua coluna com o título Conversando nas Queimadas

Nas ribeiras do Potengi já passa de uma semana sem sinal de chuvas num mês que vai terminando fraco delas. Vê-se o mato murchando e o pasto ficando ralo, o céu azul infinito quase despovoado de nuvens. Barra no poente, nenhuma. Na nascente, também  não. Mas os meteorologistas que andaram reunidos em Sergipe, terra de Francisco J.C. Dantas, do time dos grandes escritores brasileiros, e criador de cabras e carneiros em sua fazenda Lajes Velha, acreditam que as chuvas voltarão ao leste do Nordeste em junho e julho respingando nos agrestes, amém. Esperanças renovadas, com as quais saúdo as jitiranas que ensaiam de roxo os caminhos daquele chão. As chuvas falharam e suas ramas não conseguem subir pelas estacas, se espichar  pelo arame e abraçar as juremas e catingueiras. As jitiranas, todos os anos, por estes tempos de maio e junho fazem a festa pelo Potengi. Foram até homenageadas com um soneto de Virgílio Maia, poeta maior das ribeiras do Jaguaribe:

“Cessada a chuva, à jitirana em festa/ doideja cores pelo Potengi,/ nos caminhos de sempre, onde sorri/ nesse tom-sobre-tom do violeta. // Depois, acolá assim, as catingueiras/ são moedeiros dos dobrões mais puros,/ expostos à cobiça e demais usos/ do esvoaçante mundo das abelhas. // A arquitetura vegetal se exibe:/ cerca de arame faz muralha verde,/ salpicada do roxo da Quaresma. // Eis na latada um beija-flor a pique / é furta-cor exclamação de sede/ no sufragante de uma cena acessa.”

Mesmo sem sinal de chuva, domingo foi de muita alegria em Queimada de Baixo. Estava dividindo um flerte entre a jitiriana driblando os espinhos de um facheiro com sua florzinha ainda de roxo desmaiado e o amarelo ouro de uma caibreira que antecipou o tempo de sua floração, quando de repente, mais do que de repente, vejo entrar pelo terreiro o velho  amigo Ambrósio Azevedo, patriarca de São Paulo do Potengi, à frente de sua comitiva: Amauri de Ambrósio, Pedrinho Aquino, Luizinho Marques e Johan Adonis, conhecido e respeitado como o maior degustador (não bebedor) de cachaça daquelas ribeiras. Também é geógrafo e tem paixão pelo ABC e pelo PT.  Muito mais pelo PT.
Amauri é músico e formado em gestão pública Pedrinho Aquino, empresário comercial, e Luizinho, livreiro e dono da principal banca de jornais de São Paulo. Todos, discípulos do Monsenhor Expedito e que prosseguem na mesma missão  com o Padre Ramos. Pedrinho é tão devoto que o seu estabelecimento comercial (material de construção) tem o nome de Frei Damião. Na sua calçada, quando a feira era no domingo, reunia-se, todas as manhãs, uma confraria da qual fazia parte também o doutor Otávio Lamartine. Ambrósio, já chegando aos 85 anos, é a memória viva de São Paulo do Potengi. Foi comerciante, dono de padaria, dono de cinema, dono de amplificadora, comentarista politico, vereador e assessor do Monsenhor Expedito para assuntos  variados.

O papo se instalou no alpendre que se abre para a nascente dominada pela Serra de Joana Gomes. Foi uma manhã,  entrando pela tarde, agradabilíssima e de de tanto encantamento que, ás vezes, quando a roda fazia uma rápida pausa para beliscar o cálice de vinho do Porto ou uma cachacinha de Salinas (preferida do Johan, que não é irlandês, mas nascido em São Tomé, com antepassados seridoenses), tinha-se a sensação de ouvir, não muito distante, os aboios de Fabião. As Queimadas estavam em festa.


Fonte: Coluna do Woden Madruga / Tribuna do Norte 

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