segunda-feira, 16 de junho de 2014

A Ira de LULA e a baixaria entre PT e PSDB

Por Josias de Souza

Ao discursar neste domingo no lançamento da candidatura petista de Alexandre Padilha ao governo de São Paulo, Lula respondeu aos ataques feitos na véspera por líderes do PSDB. Soou especialmente ácido em relação ao antecessor Fernando Henrique Cardoso e ao presidenciável tucano Aécio Neves, hoje o principal antagonista de Dilma Rousseff.
FHC dissera na véspera, na convenção que formalizou a candidatura presidencial de Aécio: “As urnas clamam, querem mudança. Elas cansaram de empulhação, corrupção, mentira e distanciamento entre o governo e o povo.” Sem citar nomes, referiu-se genericamente aos petistas como “ladrões” e “farsantes”.
E Lula: “Ainda ontem, na convenção deles, eu vi o ex-presidente falar que é preciso acabar com a corrupção. Ele deveria dizer quem é que estabeleceu a promiscuidade entre o Poder Executivo e o Congresso Nacional, quando ele começou a comprar voto para ser aprovada a reeleição, em 1996.”
Aécio afirmara no sábado: “A cada dia que passa, por cada Estado ou região pela qual ando, eu percebo que há não apenas mais uma brisa, mas uma ventania por mudanças. Um tsunami que vai varrer do governo federal aqueles que lá não têm se mostrado dignos e capazes de atender às demandas da população brasileira.”
Lula devolveu: “Vocês viram que ontem, na convenção do PSDB, eles repetiram, em 2014, aquilo que o [Jorge] Bornhausen tinha falado em 2005, quando começou o processo da CPI do mensalão: ‘nós precisamos acabar com essa raça’, dizia o Bornhausen. E nós acabamos com aquele PFL do seu Bornhausen.”
Evocando a crise hídrica que atormenta o governo tucano de Geraldo Alckmin, Lula acrescentou: “Agora, o candidato deles [...] diz que vai ter um tsunami que vai varrer o PT do Brasil. Ora, por que eles não colocam o tsunami pra trazer água de volta pro Sistema Cantareira, que seria muito mais fácil e estaria ao alcance deles?”
Suprema ironia: ex-senador pelo PFL de Santa Catarina, Bornhausen comandou a troca do nome da legenda para DEM e, posteriormente, deixou os seus quadros na caravana liderada por Gilberto Kassab. Fundaram o PSD, um partido que, hoje, apoia a reeleição de Dilma. Lula abençoou a união. Borhausen preferiu associar-se ao prjeto presidencial de Eduardo Campos. Seu filho, Paulo Bornhausen, preside o diretório catarinense do PSB.
Lula afirmou que o PT não pode ficar calado diante das acusações de corrupção. Disse que, nessa matéria, seu governo foi bem diferente do de FHC, algo de que “cada petista deveria ter orgulho”. No dizer de Lula, “a diferença é que nós tiramos o tapete da sala. E eles jogavam tudo pra debaixo do tapete.”
“A gente resolveu dizer o seguinte: só tem um jeito de as pessoas não serem punidas. É as pessoas não serem corruptas. Isso vale para os corruptos e para o corruptor. E fomos nós que fizemos isso. Cada decreto, cada lei. Pergunte para o diretor da Polícia Federal”.
Para saber o que pensa a Polícia Federal, o melhor é conversar com os agentes, não com o diretor, como sugere Lula. Quem ouve a turma de baixo percebe que é grande a irritação com o discurso de Lula e do PT segundo o qual o mensalão foi uma farsa.
Quem reuniu as provas da fábula que levou a cúpula do PT às celas da Papuda foi o pessoal da PF. Quem denunciou e atestou a higidez dos achados foram os procuradores-gerais da República indicados por Lula e Dilma. Quem condenou foi um STF majoritariamente composto de ministros indicados na Era petista. O relator Joaquim Barbosa, por exemplo, nasceu da caneta de Lula.
Abespinhado com o xingamento que a torcida do Itaquerão dirigiu a Dilma no jogo do Brasil contra a Croácia, Lula sugeriu aos deputados federais do PT que façam “um requerimento ao presidente do TCU, para que ele diga se tem corrupção ou não na Copa do Mundo”. Esclareceu que há no tribunal de contas “um ministro designado só para cuidar da corrupção” nas obras da Copa.
Sem mencionar o nome do ministro, Lula declarou: “Até agora, esse ministro não se pronunciou. Eu trouxe ele para uma conversar comigo. Ele falou que não tem [corrupção]. Eu falei: se não tem, por que não fala? ‘Ah, porque não é meu papel. Meu papel é só acusar’.”
Lula entoou na convenção de Padilha o mesmo discurso bélico que despejara sobre o microfone, na noite de sexta-feira, num ato do PT pernambucano, em Recife. Voltou a utilizar a hostilidade dos torcedores a Dilma como suposta evidência de que a oposição recorre ao “ódio” como arma eleitoral contra o PT.
“Eles estão querendo fazer conosco o que já fizeram com Getúlio [Vargas], até levá-lo à morte”, exagerou Lula. “Querem fazer o que já fizeram com Juscelino [Kubitschek], que agora é todo bonitão pra eles. Mas eles diziam naquela época: Juscelino não pode ser candidato, se for não pode ganhar e se ganhar não pode governar.”
Lula prosseguiu: “Depois, eles tiraram o João Goulart. E tentaram me tirar, em 2005. Mas eu disse pra eles: se quiserem me tirar, vão ter que debater na rua, pra vocês conhecerem o que é o povo brasileiro de verdade.”
Nesse ritmo, até o dia da eleição Lula ainda vai responsabilizar o tucanato pelas bombas despejadas sobre Hiroshima e Nagasaki. Na definição do padrinho de Dilma, “tucano não é coisa boa. Ninguém tem aquele bico grande à toa.”
Já no final, Lula acusou “os tucanos” de organizar a difusão na internet de boatos sobre um de seus filhos, Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha. Ele é apontado num falso dossiê como sócio do frigorífico Friboi, proprietário de uma fazenda e dono de um jatinho executivo de US$ 50 milhões. O caso resultou na abertura de um inquérito policial. Corre no 78º Distrito Policial de São Paulo.
“Sei que parte disso é coisa organizada pelos tucanos”,
“A resposta que a gente tem que dar pra eles não é a resposta do ódio, mas de quem está com tranquilidade”, discursou Lula. “Cada militante tem que saber o seguinte: vocês vão ser provocados na rua. Eu nem falo da internet, porque a grosseria está de tal ordem, o baixo nível está de tal ordem…”
Foi nesse ponto que o morubixaba do PT injetou Lulinha no seu improviso: “Vocês sabem que nós fomos investigar aqueles caras que falaram que meu filho era dono do Friboi, que tinha avião de US$ 50 milhões. Nós fomos atrás. Conseguimos detectar dez pessoas.” Sem citar nomes, Lula prosseguiu:
“Um deles, que mora em São Miguel Paulista [bairro de São Paulo], a primeira coisa que ele falou foi: ‘não, eu não quero mal ao filho do Lula. Eu sempre votei no Lula. É que eu vi e passei pra frente’. A internet é uma revolução pra todos nós, mas ela pode ser pro bem e pro mal.”
O orador foi adiante: “Antes, um canalha, pra falar mal de uma pessoa, tinha que correr risco. Tinha que estar na mesa de um bar, tinha que falar pra outra pessoa. E a outra pessoa poderia discordar. Agora, ele alimenta o demônio dele sentado no quarto dele, na cama dele, falando todas as canalhices que ele jamais teria coragem de falar publicamente.”
Arrematou: “A gente tem que ficar esperto. Nós precisamos utilizar a internet pro bem e não pro mal. E sei que parte disso é coisa organizada pelos tucanos. Os tucanos não brincam. Ninguém tem aquele bico grande à toa. Tucano não é coisa boa. A gente tem que voltar a ter orgulho da nossa bandeira, voltar a andar com a nossa camiseta. E ter coragem de fazer o debate, qualquer que seja o assunto. Nós temos que debater, porque nos temos legado.”
Lula não mencionou o nome de nenhum tucano. Há 20 dias, os repórteres Pedro Venceslau e Thais Arbex noticiaram detalhes do inquérito policial sobre os boatos envolvendo Lulinha, que corre em segredo de Justiça. Contaram que um dos investigados se chama Daniel Graziano. É filho do ex-ministro Xico Graziano, coordenador de redes sociais da campanha presidencial de Aécio Neves.
De acordo com a notícia, descobriu-se que uma das máquinas que difundiram as inverdades sobre Lulinha está instalada no Instituto Henrique Cardoso, o iFHC. Seria operada por Daniel Graziano. Ouvida, a entidade que leva o nome do ex-presidente tucano alegou que os comentários de um internauta motivaram o caso. Acrescentou que os boatos “não expressam a opinião da instituição”.
Coordenador jurídico do PT, o advogado Marco Aurélio Carvalho afirmou: “Imagine se tivessem surgido no computador do filho do Lula, no instituto do ex-presidente, rumores de que a filha de Aécio é sócia da Friboi!”.
O caso envolvendo Lulinha veio à luz nas pegadas da revelação de que computadores instalados na prefeitura de Guarulhos, gerida pelo PT há 14 anos, haviam sido usados para criar nas redes sociais páginas com ofensas a Aécio Neves. Coordenador jurídico do PSDB, o deputado federal Carlos Sampaio (SP) disse na ocasição que o episódio comprovava a existência de “quadrilhas virtuais” formadas para difamar Aécio. O partido protocolou uma ação contra o PT no TSE.
E Marco Aurélio, o advogado do PT: “Espero que a vontade de investigar não seja seletiva. Pau que bate em Chico tem que bater em Francisco.” A prefeitura petista de Guarulhos responsabilizou uma servidora pela criação das páginas contra Aécio. Ela foi demitida.

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