sexta-feira, 15 de maio de 2015

IMPRESSIONANTE: Como a Petrobras foi comandada até quase ser tragada pela roubalheira

Petrobras
Que direção de órgão público ou de empresa estatal ou de repartição do governo resistiria incólume à revelação em detalhes de discussões travadas sob o manto do segredo?
Desconfio que nenhuma. Ou poucas. Talvez resistisse a direção de piedosas e seculares irmandades religiosas. Ou nem essas.
Nada é mais demolidor do que a transparência. Nada resiste à luz inclemente do sol a pino.
É o que prova a série de reportagens de Vinícius Sassine, de O Globo, escritas com base em gravações de reuniões da diretoria da Petrobras ou do Conselho de Administração da empresa.
A mais recente informa sobre a recusa dos principais conselheiros da Petrobras a acatarem pedidos para excluir de futuras licitações a empreiteira Odebrecht, envolvida na roubalheira da Lava-Jato.
Áudio da reunião de 4 de novembro de 2014, obtido pelo GLOBO, mostra que o conselheiro Sérgio Quintella, presidente do comitê de auditoria da Petrobras, afirmou serem “evidentes os indícios de fraude” em contrato de R$ 825,6 milhões da Odebrecht para serviços de segurança em refinarias no exterior.
Conselheiros questionaram a então presidente da estatal, Graça Foster, sobre o fato de a empresa holandesa SBM Offshore ter sido impedida de participar de novas licitações e a Odebrecht, não. A SBM confessou o pagamento de propina a funcionários da estatal.
Resposta enviesada de Graciosa, como Dilma chama Graça:
– Existe um processo, eu não sou advogada, peço ajuda aos advogados, existe um processo no Ministério Público decorrente da comissão interna. A Odebrecht tem um diretor com acusações do próprio Ministério Público, e isso está em curso. Por que punimos SBM e não punimos Odebrecht? É uma pergunta que eu não tenho elementos.
Entendeu? Eu, não.
Miriam Belchior, então ministra do Planejmento e membro do Conselho, apressou-se em sair em defesa da Odebrecht:
– Uma coisa é a empresa admitir o que fez. A outra é ter indícios e não ter as provas que o Ministério Público está averiguando. Vou adotar a mesma penalidade para situações diferentes? Todo mundo é inocente antes de provas. Esse é um cuidado que a empresa tem de ter, independente de quem está do lado de lá, se é pequena, se é grande. A despeito de indícios fortíssimos, nós não temos provas cabais. Não tenho, graças a Deus, procuração para estar defendendo nenhuma empresa. A gente precisa ser cuidadosa para ter as provas cabais, senão vamos fazer caça às bruxas.
Comovente, não?
Representante dos funcionários no colegiado, o conselheiro Sílvio Sinedino defendeu a exclusão da Odebrecht de novas licitações:
– A Petrobras pode se adiantar, sim. “Não vou convidar mais essa empresa, porque ela já quis me passar a perna em US$ 400 milhões”. Quem garante que não vai passar a perna em US$ 1 bilhão? Acho que não devemos convidar mais.
Foi quando Guido Mantega, ministro da Fazenda e presidente do Conselho de Administração da empresa, pôs um ponto final do debate:
– Vamos tocar adiante (a reunião).
Dez dias depois, a Polícia Federal prendeu presidentes, executivos e funcionários de empresas suspeitas de integrar um cartel que fatiou contratos da Petrobras. A Odebrecht está sendo investigada.
Somente em 29 de dezembro do ano passado, a Petrobras excluiu a Odebrecht e mais 22 fornecedoras de futuras licitações. A Odebrecht tem R$ 17 bilhões em contratos com a Petrobras.

Por Ricardo Noblat

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