quinta-feira, 28 de maio de 2015

"Lembrando Monsenhor Expedito" - Por Wodem Madruga


O jornalista Woden Madruga, em sua coluna na Tribuna do Norte, relembrou nesta quarta (27) um pouco da história do nosso eterno Monsenhor Expedito Sobral de Medeiros, o Profeta das Águas. A lembrança se dá por ocasião da realização do seminário "Nordeste 60 anos depois: mudanças e permanências", realizado pela Arquidiocese de Natal.

Segue abaixo a transcrição das palavra do WM.

A Igreja do Nordeste reúne-se hoje em Natal num seminário intitulado  “Nordeste 60 anos  depois: mudanças e permanências”. Aqui estarão reunidos  bispos da região, ministros, governadores, reitores de universidades públicas e privadas, técnicos, pesquisadores, gestores públicos e representantes de instituições internacionais. A intenção da Arquidiocese de Natal, que  promove o seminário,  é reeditar o I Encontro dos Bispos do Nordeste realizado em 1956 na cidade de Campina Grande, Paraíba,  e que contou com a presença do presidente Juscelino Kubitschek. Ali seriam dados os primeiros passos para a criação da Sudene. 

A Assessoria de Imprensa da Arquidiocese informa que no seminário  será “apresentado um conjunto de atividades envolvendo diversos e diferentes segmentos da sociedade nordestina para analisar, como profundidade, as transformações no Nordeste, levando em consideração as dimensões político-institucional, social, econômica, ambiental e cultural do desenvolvimento (...) A ideia é provocar o debate do desenvolvimento a partir  de seus contextos específicos e que se diferenciam a partir da participação, gestão social, e implantação de políticas públicas.” 

O I Encontro dos Bispos do Nordeste, realizado há 60 anos,  contou com a participação decisiva de Dom Eugênio Sales, Bispo Auxiliar de Natal, que foi ao Rio de Janeiro conversar com Dom Helder Câmara que levaria o assunto ao presidente Juscelino. Acho – tenho certeza -  que por trás de Dom Eugênio atuava outra grande figura da Igreja, o Monsenhor Expedito Medeiros, vigário de São Paulo do Potengi.  A agenda que foi discutida em Campina Grande fazia parte, há muito tempo, de sua ação pastoral e social. Estou torcendo que o seu nome não seja esquecido nesse encontro de Natal. Aliás, Dom Jaime Vieira Rocha, nosso Arcebispo, conhece muito bem a vida e a obra do Monsenhor Expedito, pois o tema de  sua  dissertação de Mestrado, defendida na Universidade Católica de Pernambuco, é sobre o  “Profeta das Águas”: “Monsenhor Expedito Sobral de Medeiros: um arauto da dignidade humana no sertão potiguar”.

A ação do Monsenhor. Antes de começar a batucar estas mal traçadas linhas me lembrei que o  Monsenhor Expedito escreveu alguma coisa sobre o  Encontro dos Bispos  de Campina Grande.  Está no seu livro “Pelos Caminhos do Potengi”. Às folhas tantas ele fala sobre a seca de 1958,  e  a luta de sua igreja para por ordem as coisas. Ele dizia que nas secas anteriores havia espertalhões que se enriqueciam “às custas da miséria dos desvalidos. Era a maldiçoada  indústria das secas”. Transcrevo algumas passagens:

- Na seca de 58, a coisa foi diferente. O “Centro Social São Paulo” decidiu competir com o barracão tradicional. Fo criado um posto de abastecimento e lhe demos o nome de Posto do DNOCS, sem autorização de ninguém. Conseguimos no escritório local daquele Departamento a metade das folhas semanais de pagamento, em gêneros. Em Natal, Dom Eugênio dava o aval ao comércio grossista. A mercadoria era trazida de graça pelos caminhões da Base Naval e aqui eram  fornecidas a preço de custo. Dentro de um mês, o outro barracão fechou! Foi uma vitória!

- Quem não se lembra do entusiasmo da comunidade, da juventude, todos os sábados, distribuindo os gêneros pelas janelas do Centro, conforme as listas recebidas do DNOCS?

- Com 4.000 trabalhadores sob sua responsabilidade, nossa comissão viu a coisa preta! Não tínhamos certeza se o Governo pagaria a conta dos fornecedores. E se a seca se prolongasse? Então, Dom Eugênio foi ao Rio de Janeiro e se entendeu com Dom Hélder Câmara, bispo auxiliar do Cardeal Jaime Câmara. Marcaram um encontro com o presidente Juscelino Kubitschek. 

- Juscelino ficou indignado com o tratamento dado aos trabalhadores da emergência e tomou logo as providências, nomeando um general para coordenar a assistência aos flagelados. Tendo havido o 1º Encontro dos Bispos do Nordeste, em Campina Grande, onde Juscelino compareceu, foram lançadas as bases para a fundação da Sudene, em 1959, a qual, sem resolver esse grave problema do Nordeste, coordena a assistência nas grandes calamidades.

- No documento “Nordeste, desafio à missão da Igreja”, os bispos declararam que esse grave problema só será resolvido com séria decisão política, capaz de resolver essa situação de miséria crônica. Isso disseram os bispos: “Por força de um autêntico compromisso evangélico, a Igreja deve fazer ouvir sua voz, denunciando e condenando estas situações, sobretudo quando os governos ou os responsáveis se confessam cristãos”.

- Foi possível realizar muita coisa, com a ajuda espontânea do povo, sem nenhum prejuízo para minha missão estritamente religiosa. Eu mesmo me considerava feliz e realizado,  pois, naquela época, já se dizia que isso fazia  parte da missão supletiva da Igreja, quer dizer, a Igreja supria com sua ação social aonde o poder público não chegava ou se omitia.

Com informações do Blog do Silvério Alves

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