segunda-feira, 24 de novembro de 2014

Desabastecimento em hospitais no RN pode matar pacientes e pôr profissionais em risco

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O desabastecimento das unidades de saúde da rede estadual do Rio Grande do Norte está comprometendo os atendimentos e cirurgias realizadas nos hospitais públicos e colocando a vida de pacientes e dos próprios profissionais em risco. Médicos e enfermeiros denunciaram nesta quarta-feira (19) que a falta de medicamentos e de materiais essenciais para os procedimentos atingiu um nível crítico, a ponto de algumas cirurgias não serem feitas porque não havia gorros, protetores de pés e luvas descartáveis no Hospital Walfredo Gurgel, que atende uma média mensal de 21 mil pessoas. 

“Vivenciamos hoje um descalabro na saúde, uma situação de desabastecimento gravíssima. Hoje mesmo não há máscara ou luvas descartáveis, antibióticos, analgésicos e outros itens essenciais para o funcionamento básico do Walfredo, por exemplo. É uma situação extremamente grave, considerando que temos tido um aumento de óbitos por causa do crescimento do índice de infecção hospitalar. Mas ele também é uma vítima em potencial do subfinanciamento e da crise gerencial do sistema. Ontem, uma colega de trabalho doou luvas para que os companheiros pudessem trabalhar com um mínimo de segurança”, afirmou o médico intensivista Sebastião Paulino.
Trabalhando na Unidade de Terapia Intensiva (UTI) do Walfredo Gurgel, ele disse que a situação de falta de medicamentos e insumos hospitalares chegou ao nível máximo, fazendo com que os conselhos e entidades de classes como o Conselho Regional de Medicina (CRM) ingressassem com ação na justiça para que as unidades de saúde fossem reabastecidas, com sentença desfavorável ao Governo do Estado. E que os servidores esperam que o executivo cumpra a sentença judicial.
“A medicina praticada hoje nos hospitais do Estado está abaixo do razoável em decorrência dessa crise sem fim. Atuamos em condições adversas, sem ter equipamentos para nos protegermos e aos próprios pacientes, em uma insalubridade acentuada, já que o índice de infecção hospitalar aumentou e oferece perigo aos servidores. Nunca vivemos uma situação dessas e o pior é que não sabemos como serão as próximas semanas. Precisamos de uma medida de caráter emergencial, uma intervenção urgente, para que mais pessoas não paguem com a própria vida por tudo isso. É lamentável”, desabafou Sebastião, que já foi diretor geral do Walfredo Gurgel.
Para o presidente do Sindicato dos Médicos do Rio Grande do Norte (Sinmed), Geraldo Ferreira, o problema não é falta de dinheiro como o alegado pelo executivo estadual, mas sim compromisso e descaso com a saúde pública. Ele disse que na próxima segunda-feira (24), haverá uma audiência pública na Câmara Municipal de Natal para denunciar, mais uma vez, o caos vivenciado hoje na saúde e os riscos que isso vem causando à população que necessita dos serviços.
“Há uma série de denúncias feitas pelos sindicatos e o próprio CRM sobre isso, pedimos o empenho do secretário de Saúde, mas vemos que há um grande descaso mesmo. Enquanto isso, vivemos com os riscos iminentes que essa situação de colapso oferece e que nos são reportados diariamente pelos servidores, tanto da Capital como dos municípios do interior, onde a situação é ainda pior, porque está longe dos holofotes”, disse.
Cirurgias adiadas
Um servidor do Walfredo Gurgel que atua na enfermagem revelou que cirurgias estão deixando de serem feitas porque não há material de proteção para a equipe. O problema, que viria ocorrendo há alguns dias, é agravado ainda pela falta de anestésicos usados para sedação dos pacientes e medicamentos como antibióticos e antiinflamatórios, essenciais para o pós-cirúrgico. E que muitos acabam passando mais tempo do que o necessário para a recuperação, por causa da falta de medicamentos.
“Infelizmente, isso vem acontecendo com freqüência. Faltam materiais básicos, como luvas de procedimentos, gorros descartáveis e protetores para os pés, máscaras, gases para curativos, fios para suturas, além de materiais para uso nos pacientes. No meu último plantão, anteontem, quase não teve cirurgia porque não tinha material. Enquanto isso, os doentes sofrem esperando por um procedimento que não é feito e em situações precárias”, desabafou o enfermeiro, que não quis se identificar por temer represália.
Na Unidade Central de Agentes Terapêuticos (Unicat), que faz a distribuição de medicamentos e insumos para os hospitais da rede estadual de saúde, a situação continua crítica, com mais de 50% de desabastecimento dos itens. Conforme os servidores, não há data prevista para a situação melhorar, porque a Secretaria de Estado da Saúde Pública (Sesap) já reafirmou não ter dinheiro para pagar as dívidas anteriores aos fornecedores e comprar novos medicamentos para repor o estoque da unidade.
Sesap
O secretário Luiz Roberto Fonseca reconheceu o problema e disse que a Sesap vem se esforçando para fazer os pagamentos das dívidas anteriores com as empresas fornecedoras de medicamentos, que temem um calote, já que a atual gestão está no final. Ele afirmou ainda que no início do mês, foi feito o repasse de R$ 4,5 milhões para farmacêuticas, para que elas liberassem os medicamentos licitados, mas que, mesmo assim, o nível de descrédito do Rio Grande do Norte é alto.
“Eles temem sofrer um novo calote, como o que ocorreu no final do governo Wilma de Faria em dezembro de 2010, quando a Secretaria de Planejamento cancelou o empenho de mais de R$ 70 milhões em medicamentos que já haviam sido entregues. Infelizmente, a má impressão causada naquela época continua e virou problema de credibilidade grave para a atual gestão, que sofre ainda com dívidas que se arrastam desde 2009. Para se ter uma ideia, quando recebemos o governo, o débito era de R$ 150 milhões, mas hoje esta em R$ 90 milhões”, afirmou.
Luiz Roberto disse ainda que as empresas farmacêuticas só entregam os medicamentos licitados mediante o pagamento da dívida anterior e que isso tem contribuído para o desabastecimento das unidades em todo o Rio Grande do Norte. “Ainda mais agora, que estamos em final de exercício fiscal e de gestão governamental. Estamos pagando aos poucos, mas o medo deles, justificável, ainda é muito alto, mas estamos trabalhando para fazer o melhor que podemos”, disse.

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